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Derretimento do gelo no Ártico ameaça cadeia alimentar marinha, aponta estudo

Perda de gelo reduz nutriente essencial e acende alerta para vida marinha no Ártico

Estudo publicado na Communications Earth & Environment aponta que a perda acelerada do gelo marinho reduziu os níveis de nitrato no Ártico, nutriente essencial para o fitoplâncton. A mudança pode afetar peixes, aves, mamíferos marinhos e a capacidade do oceano de armazenar carbono.

O derretimento acelerado do gelo marinho no Ártico está provocando uma mudança química com potencial de afetar toda a cadeia alimentar da região. Um estudo publicado em 28 de maio de 2026 na revista Communications Earth & Environment mostra que a perda de gelo reduziu os níveis de nitrato nas águas superficiais, nutriente essencial para o crescimento do fitoplâncton, organismos microscópicos que sustentam a vida marinha desde a base.

A pesquisa foi conduzida por cientistas da Universidade de Edimburgo e de instituições parceiras da Noruega, Escócia, Dinamarca e Alemanha. Os pesquisadores analisaram dados coletados entre 1998 e 2023 no Estreito de Fram, passagem entre a Groenlândia e Svalbard, considerada uma das principais rotas de saída das águas do Oceano Ártico para o Atlântico.

Derretimento do gelo no Ártico altera nutrientes do oceano

De acordo com o estudo, o sistema entrou em uma nova fase por volta de 2009. A partir desse período, as concentrações de nitrato nas águas polares superficiais caíram de forma acentuada e não se recuperaram até o fim da série histórica analisada. Antes de 2009, a concentração média era de 3,1 micromolar; depois, caiu para 1,7 micromolar, com valores próximos de zero aparecendo com mais frequência.

O nitrato funciona como uma espécie de “fertilizante” natural para o fitoplâncton. Quando esse nutriente diminui, a produtividade desses organismos pode ser limitada, reduzindo a quantidade de energia disponível para espécies maiores, como zooplâncton, peixes, aves marinhas e mamíferos.

Fitoplâncton sustenta a cadeia alimentar marinha

O fitoplâncton é fundamental para o equilíbrio dos oceanos. Esses organismos realizam fotossíntese, servem de alimento para pequenos animais marinhos e ajudam a transferir energia para níveis mais altos da cadeia alimentar.

Durante anos, cientistas acreditavam que a perda de gelo poderia aumentar a produção de fitoplâncton, já que mais luz solar chegaria à superfície do oceano. O novo estudo indica que essa relação mudou: com menos gelo e mais luz, a produtividade aumentou em algumas áreas, mas também acelerou processos no fundo do mar que removem nitrato da água.

Esse processo é chamado de desnitrificação bentônica. Ele ocorre em regiões rasas da plataforma continental, onde o nitrato é convertido em gás nitrogênio e deixa de ficar disponível para os organismos que dependem dele. Segundo os pesquisadores, esse mecanismo ganhou força especialmente nas plataformas da Sibéria e do Alasca.

Mudança pode favorecer organismos menores

A queda do nitrato pode alterar quais tipos de fitoplâncton conseguem prosperar no Ártico. Segundo os cientistas, ambientes com menos nitrato tendem a favorecer espécies menores, que transferem energia de forma menos eficiente para animais maiores.

Isso significa que a mudança não afeta apenas microrganismos invisíveis a olho nu. Ela pode chegar a peixes, aves, baleias e outros animais que dependem de uma cadeia alimentar produtiva. Os pesquisadores alertam que as consequências completas ainda precisam ser acompanhadas, inclusive em regiões conectadas ao Ártico, como o Atlântico Norte.

Oceano também pode armazenar menos carbono

Além do impacto sobre a vida marinha, a redução do fitoplâncton pode afetar a capacidade do oceano de retirar dióxido de carbono da atmosfera. Esses organismos absorvem carbono durante a fotossíntese e parte desse material pode afundar, ajudando no armazenamento de carbono em águas profundas.

Se a produtividade do fitoplâncton for limitada pela falta de nutrientes, esse mecanismo natural pode se tornar menos eficiente. Por isso, a mudança observada no Ártico não é apenas uma questão ambiental regional, mas também um alerta climático global.

Ártico exige monitoramento contínuo

O estudo também mostra que o Ártico está mudando rapidamente. Desde 1990, a concentração de gelo marinho em setembro nas plataformas da Sibéria e do Alasca caiu cerca de 50%, enquanto o tempo médio de permanência do gelo no Oceano Ártico passou de 4,3 para 2,7 anos.

Para os pesquisadores, o ecossistema pode ter passado por um ponto de inflexão por volta de 2009. A recomendação é ampliar o monitoramento químico e biológico das águas do Ártico para entender como a perda de nitrato afetará a pesca, a biodiversidade e o papel dos oceanos no equilíbrio climático.

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