
Fala de Mauro Campbell em Lisboa reacende debate sobre supersalários no Judiciário
O corregedor nacional de Justiça e ministro do STJ, Mauro Campbell Marques, afirmou no Fórum de Lisboa que não recebe remuneração “à altura” do volume de processos que julga. A declaração repercutiu após publicações apontarem vencimentos que somam cerca de R$ 390 mil entre fevereiro e abril de 2026.
O corregedor nacional de Justiça e ministro do Superior Tribunal de Justiça, Mauro Campbell Marques, afirmou durante o Fórum de Lisboa que não tem uma remuneração “à altura” dos milhares de processos que julga no STJ. A declaração, feita em entrevista ao portal STF em Foco, repercutiu nas redes sociais e reacendeu o debate sobre supersalários, verbas extras e transparência no Judiciário.
A fala ganhou maior repercussão porque publicações baseadas em dados de folha de pagamento apontam que Campbell recebeu aproximadamente R$ 127 mil em fevereiro, R$ 122 mil em março e R$ 141 mil em abril de 2026, somando perto de R$ 390 mil em três meses. O portal O Antagonista também destacou o contracheque de R$ 141 mil em abril ao tratar da declaração do ministro.
Mauro Campbell reclama de remuneração em Lisboa
Durante a entrevista, Campbell afirmou que já julgou cerca de 130 mil recursos em 18 anos de atuação no STJ e defendeu que deveria receber salário compatível com o volume de trabalho prestado ao país. A declaração foi feita no Fórum de Lisboa, evento que reúne autoridades do Judiciário, políticos, juristas e empresários, e que é chamado de “Gilmarpalooza” por críticos e opositores.
O ministro é uma das figuras mais relevantes do sistema de Justiça brasileiro. Ele tomou posse como corregedor nacional de Justiça em setembro de 2024, para o biênio 2024-2026, cargo responsável por receber reclamações contra magistrados e exercer funções de inspeção e correição no Judiciário.
Valores recebidos reacendem debate sobre supersalários
A repercussão da fala ocorreu em um momento sensível. O teto constitucional do funcionalismo público corresponde ao subsídio dos ministros do STF, atualmente em R$ 46.366,19. Em março de 2026, o Supremo definiu novas regras para limitar pagamentos extras a magistrados e membros do Ministério Público, permitindo remunerações que podem chegar a cerca de R$ 78,8 mil em determinadas condições.
Nesse contexto, a soma atribuída a Campbell entre fevereiro e abril ampliou a crítica pública. Embora parte desses valores possa envolver indenizações, vantagens pessoais, pagamentos acumulados ou rubricas específicas, o contraste entre os contracheques citados e a reclamação sobre remuneração gerou desgaste político e institucional.
STF aprovou novas regras para penduricalhos
A decisão do STF sobre os chamados “penduricalhos” buscou criar limites para verbas extras e aumentar a transparência da folha salarial da magistratura e do Ministério Público. Segundo a Agência Brasil, o novo modelo permite pagamentos de até 70% acima do teto constitucional e, segundo a própria Corte, poderia gerar economia anual de R$ 7,3 bilhões.
A medida, porém, continua sendo criticada por setores da sociedade civil e por parlamentares que defendem aplicação mais rígida do teto. Para esses críticos, permitir remunerações acima do limite constitucional mantém uma diferença difícil de justificar diante da realidade fiscal do país e da renda média da população brasileira.
CNJ fica pressionado por exemplo interno
A posição de Campbell também pressiona o Conselho Nacional de Justiça. Como corregedor nacional, ele ocupa justamente uma função ligada à fiscalização, disciplina e integridade do Judiciário. Por isso, a cobrança por transparência ganha peso ainda maior.
O episódio reforça uma questão central para a confiança nas instituições: o Judiciário precisa prestar contas com clareza, especialmente quando os pagamentos envolvem recursos públicos. A sociedade tem direito de saber quais verbas são remuneratórias, quais são indenizatórias, quais são eventuais e quais ultrapassam o teto.
Desgaste institucional pode crescer
A fala do ministro em Lisboa tende a alimentar o debate sobre distanciamento entre a cúpula do Judiciário e a realidade econômica do país. Em um cenário de pressão sobre gastos públicos, endividamento das famílias e cobrança por eficiência do Estado, declarações sobre remuneração elevada costumam ter forte impacto político.
O caso também ocorre no momento em que Campbell foi eleito vice-presidente do STJ para o biênio 2026-2028, com posse prevista para agosto. A escolha foi anunciada pelo próprio tribunal em abril.
A repercussão deve continuar enquanto não houver esclarecimento detalhado sobre os valores recebidos, a composição das verbas e o entendimento do CNJ sobre o cumprimento das novas regras definidas pelo STF.